A riqueza dos bilionários saltou mais de 16% em 2025, três vezes mais rápido do que a média dos últimos cinco anos, chegando a US$ 18,3 trilhões – seu nível mais alto da história, de acordo com um novo relatório da Oxfam divulgado no último domingo (18) por ocasião da abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos.
Desde 2020, a riqueza dos bilionários aumentou 81%, enquanto uma em cada quatro pessoas não tem regularmente o suficiente para comer e quase metade da população mundial vive na pobreza.
O relatório “Resistindo ao Domínio dos Ricos: Protegendo a Liberdade do Poder dos Bilionários” analisa como os super-ricos estão garantindo poder político para moldar as regras de nossas economias e sociedades em benefício próprio e em detrimento dos direitos e liberdades das pessoas em todo o mundo.
O aumento da riqueza dos bilionários coincide com a administração Trump nos EUA perseguindo uma agenda pró-bilionários. Ela reduziu drasticamente os impostos para os super-ricos, prejudicou esforços globais para tributar grandes corporações, reverteu tentativas de enfrentar o poder de monopólio e contribuiu para o crescimento das ações relacionadas à IA, que deram um impulso aos investidores super-ricos em todo o mundo.
Cenário regional
No Brasil, a concentração de riqueza atinge níveis extremos: o país reúne o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe, com 66 pessoas que acumulam juntas cerca de US$ 253 bilhões, a maior fortuna total da região. Esse cenário convive com um sistema tributário historicamente regressivo, no qual a maior parte da carga recai sobre o consumo e sobre trabalhadores, penalizando de forma desproporcional pessoas negras, mulheres e famílias de menor renda, enquanto as rendas mais altas e do capital seguem insuficientemente tributadas.
Apesar de a recente reforma do imposto de renda representar um avanço ao ampliar a isenção para rendas mais baixas e estabelecer uma tributação mínima efetiva maior sobre os mais ricos, o país ainda precisa avançar na taxação de dividendos, grandes fortunas e heranças para enfrentar estruturalmente a desigualdade.
“O Brasil é um exemplo claro de como a desigualdade não é uma fatalidade, mas o resultado de escolhas políticas. Quando poucos concentram tanta riqueza e pagam proporcionalmente menos impostos, toda a sociedade perde. Avançar em uma reforma tributária verdadeiramente progressiva é essencial para reduzir desigualdades históricas, fortalecer a democracia e garantir direitos para quem mais precisa”, afirma Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil.
“A crescente lacuna entre os ricos e o resto está criando ao mesmo tempo um déficit político altamente perigoso e insustentável”, disse o Diretor Executivo da Oxfam Internacional, Amitabh Behar.
Privilégios
A Oxfam estima que bilionários têm 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns. Uma Pesquisa Mundial de Valores em 66 países constatou que quase metade de todas as pessoas entrevistadas acreditam que os ricos frequentemente compram eleições em seu país.
“Os governos estão fazendo escolhas erradas para agradar à elite e defender a riqueza, enquanto reprimem os direitos das pessoas e a indignação com o fato de que tantas vidas estão se tornando inacessíveis e insuportáveis”, disse Behar.
A taxa de redução da pobreza estagnou, com níveis basicamente onde estavam em 2019. A pobreza extrema está aumentando novamente na África. Decisões políticas tomadas por governos em todo o mundo no ano passado para reduzir orçamentos de ajuda afetaram diretamente as pessoas que vivem na pobreza e podem levar a mais de 14 milhões de mortes adicionais até 2030.
Liberdades civis e direitos políticos estão sendo revogados e suprimidos; 2024 foi o décimo nono ano consecutivo de declínio, com um quarto de todos os países restringindo as liberdades de expressão.
No ano passado, houve mais de 142 protestos significativos contra o governo em 68 países, que as autoridades geralmente enfrentaram com violência. As chances de retrocesso democrático através, por exemplo, da erosão do Estado de Direito ou do enfraquecimento de eleições são sete vezes maiores em países altamente desiguais.
Os governos estão permitindo que os super-ricos dominem empresas de mídia e redes sociais. Bilionários possuem mais da metade das maiores empresas de mídia do mundo e todas as principais empresas de redes sociais.
O relatório cita a compra do Washington Post por Jeff Bezos, Elon Musk com o Twitter/X, Patrick Soon-Shiong com o Los Angeles Times e um consórcio de bilionários comprando grandes participações na The Economist. Na França, o bilionário de extrema-direita Vincent Bolloré agora controla a CNews, reformulando-a como o equivalente francês da Fox News. No Reino Unido, três quartos da circulação de jornais são controlados por quatro famílias super-ricas.
O relatório cita evidências de que apenas 27% dos principais editores globalmente são mulheres e apenas 23% pertencem a grupos racializados, respectivamente. Além disso, minorias como imigrantes e pessoas de cor são frequentemente estigmatizadas e usadas como bodes expiatórios, e críticos são silenciados.
Autoridades no Quênia usaram o X para rastrear, punir e até sequestrar e torturar críticos do governo. Um estudo da Universidade da Califórnia, entretanto, descobriu que nos meses seguintes à aquisição do X por Elon Musk, as taxas de discurso de ódio aumentaram cerca de 50%.
A Oxfam pede que os governos priorizem:
- Planos nacionais realistas e com prazos definidos para a redução da desigualdade, com marcos bem estabelecidos e monitorização regular do progresso.
- Tributação eficaz dos super-ricos para reduzir o seu poder, incluindo impostos de base ampla sobre o rendimento e a riqueza a taxas suficientemente elevadas para reduzir os níveis massivos de desigualdade.
- Barreiras mais fortes entre riqueza e política, incluindo regulamentações mais rígidas contra o lobby e o financiamento de campanhas pelos ricos, garantindo mais independência da mídia e proibindo o discurso de ódio.
- Garantia de participação social, incluindo maior proteção às liberdades de associação, reunião e expressão das pessoas e às organizações da sociedade civil e sindicatos.

