Bode expiatório
Barrado para a cobiçada vaga ao Supremo Tribunal Federal (STF) numa votação secreta no Senado, a derrota de Jorge Messias não diz nada sobre ele ou sobre sua trajetória de vida pessoal e profissional. Ela fala mais sobre como funciona os calabouços, guetos e bastidores da política nesse país, chamado Brasil. Mostra que os fins justificam os meios, que sempre foi e sempre será assim enquanto não se quebrar um vício que já está arraigado em todos os atores que fazem e praticam a política no país. É sobre isso.
Queda de braço
Com apenas 34 votos – sete a menos que o mínimo exigiria – e 42 contrários, Messias não foi páreo para o “sangue nos olhos” da oposição, que sentia cheiro de carne vulnerável e, que, detectou de longe e inoperância e imaturidade dos aliados e líderes do governo. Nao foi uma derrota do aspirante ao STF, ele foi o instrumento para atingir o Palácio do Planalto e o presidente Lula. Na política, não cabe ingenuidade ou achismo. O Senado pagou pra ver e conseguiu.
Paciente
Diz o ditado que “vingança é um prato que se come frio” e que nunca causa indigestão. Que o diga Davi Alcolumbre, presidente do Senado e do Congresso Nacional, que saiu mais poderoso depois dessa manobra que entrou para a história política do país, com a derrota de um indicado presidencial ao STF após 132 anos e um século e meio depois. Sem esconder seu júbilo, Alcolumbre profetizou – segundos antes de sair o resultado no painel – o número exato de votos que derrotaria Jorge Messias.
A soberba…
O governo sai humilhado politicamente desse episódio, não porque não acreditasse numa derrota iminente, mas porque deixou a arrogância tomar conta das articulações, acreditando que, ao final de tudo, o trator do Executivo passaria com força e o Parlamento acataria, mesmo com placar apertado, a indicação ao STF, como aconteceu com Cristiano Zanin e Flávio Dino. O governo lançou Messias no fogo e deixou no colo dele o dever de se salvar.
…precede a queda
Ao “vetar” o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para a vaga no STF – o favorito no Senado – o presidente Lula calculou mal seu poder político e de articulação e as eventuais consequências da negativa. No íntimo, Lula não quis ceder à imposição de Alcolumbre e Pacheco acabou sendo o personagem para acirrar ainda mais a animosidade política que vinha se desenhando nos bastidores entre as duas autoridades e instituições. Agora, com esse resultado, ou o caldo entorna ou alguém vai ter que ceder.
Sensatez
Ao sair do Senado, em entrevista coletiva Jorge Messias falou com a imprensa e afirmou que “faz parte do processo democrático saber ganhar e saber perder”. “O plenário do Senado é soberano. Agradeço os votos que recebi”, afirmou. O ministro do STF, André Mendonça, que era otimista em ter Messias como colega de corte, lamentou a reprovação e afirmou que o “Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro”. O presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, disse que aguarda os novos procedimentos.
Impasse
Com Messias barrado ao STF, o presidente Lula terá que indicar um novo nome à vaga aberta, o que não deverá acontecer tão cedo após esse desgaste público e institucional. E poderá nem ser neste ano, haja vista ser eleitoral e com a campanha presidencial batendo à porta. Essa era uma dor de cabeça que o Planalto não contava e que não estava na mesa, mas será um item que o marketing político-eleitoral de Lula terá que trabalhar com muita cautela e expertise.
Apreensão
A rejeição de Messias no Senado fragiliza o governo e acende um alerta vermelho no Planalto com a possibilidade de uma nova derrota, hoje (30), na sessão do Congresso Nacional com a votação do veto presidencial total ao PL da Dosimetria, que reduz e revisa penas dos condenados do 8 de janeiro. A oposição, principalmente a bolsonarista, está em êxtase e quer finalizar a semana e iniciar o feriadão com bons motivos para comemorar nas redes sociais e nos shorts (vídeos curtos) dessas plataformas, com bastante conteúdo digital para os próximos dias.
Perigoso
A articulação de bastidor que Alcolumbre conduziu para sacramentar a derrota de Messias é vista como vingança ao presidente Lula, por ele ter desprezado a sugestão de Pacheco para a vaga, mas também já é apontada como um catalisador político para o senador, que ganha forças internas e externas e pode se tornar mais exigente nas próximas articulações. No União Brasil, a cúpula já está com as barbas de molho, uma vez que Alcolumbre e Antonio de Rueda (presidente nacional) não são tão amigos de infância assim. Afinal de contas, a traição é sempre protagonizada por um conhecido, por quem está bem perto dos acontecimentos.
Curiosidade
Favorito para a vaga no STF e com voto garantido de mais da metade dos 81 senadores, Rodrigo Pachego não fez nenhuma manifestação pública a respeito do resultado. Mas a Coluna está curiosa para saber como foi o voto do exceletíssimo senador. Será se vamos ficar com a certeza da dúvida?!

