O deputado federal Arthur Lira (PP-AL), ex-todo poderoso presidente da Câmara nas gestões Bolsonaro e Lula, agiu em toda a sua gestão para emplacar um sistema de governo semipresidencialista, quase um parlamentarismo no país, onde, ao final do dia, quem tem a última palavra é o primeiro-ministro. No início do Lula3, Lira foi praticamente uma “pedra no sapato” das decisões e modo de governar adotados pelo Planalto. Na Câmara e até mesmo no Senado, Lira tinha poder para manobrar, articular e dar as cartas de como queria que as coisas saíssem, mesmo que contrariasse o governo, afinal de contas ele era o terceiro na linha de sucessão.
Ao término de seu duplo mandato, ele tinha por obrigação fazer seu sucessor. E o fez, com as bênçaos de Lula e mesmo a contragosto de alas do Planalto: elegeu um inexpressivo e quase desconhecido deputado da Paraíba, Hugo Motta, do Republicanos, presidente do Parlamento federal.
Mas, o poder de manobra saiu da Câmara e, num processo silencioso, mas ao mesmo tempo gritante, migrou para o senador Davi Alcolumbre, do União Brasil do Amapá – que já havia sido presidente da casa e da CCJ e, com a eleição de Lula e usando de sua proximidade com o presidente, articulou para retonar ao comando da Casa Alta.
Alcolumbre que tinha como experiência política mandato como vereador na Câmara Municipal do Amapá, chegou ao Senado como integrante do baixo-clero e lá, articulou de forma inteligente sua migração para os holofotes da política nacional. Conseguiu. Nesse novo mandato à frente do Senado, ele viu seu poder aumentar e gostou. Começou a imitar Lira.
Às vezes de forma habilidosa, às vezes de forma escancarada, às vezes num discurso de moderação política, mas com tons de autoridade e de cobrança ao respeito às instituições, como o Senado, Alcolumbre começou a se “rebelar” contra as diretrizes que vinham do Palácio. Rapidamente, ele mostrou que não gostava de ser contrariado. Claro, ele estava no seu direito como figura institucional, afinal de contas os Poderes são independentes.
Mas, até que ponto a independência entre os Poderes pode mascarar desejos ocultos de vingança e manobras de bastidores para “castigar” um ente institucional porque não atendeu aos seus desejos, numa espécie de queda de braço? Isso ficou evidente na semana passada, com a rejeição do Senado ao advogado-geral da União, Jorge Messias, à vaga aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) e, à derrubada do veto presidencial à Lei da Dosimetria.
O fuxico em Brasília é de que Alcolumbre mediu forças com o Planalto, ganhou, e que essa vitória é um recado escancarado ao presidente Lula de que quem manda no Senado é ele e que tudo, tudo, decisões e articulações, principalmente de projetos importantes, passam por ele, que tem que ser consultado. Mas isso é óbvio.
Sem fazer alarde ou levantar bandeira, Alcolumbre implantou – pelo menos nos últimos episódios – um parlamentarismo branco no país. Conseguiu o que Arthur Lira tentou durante todo o tempo em que esteve à frente da Câmara e que, continua tentando nos bastidores e corredores do Congresso Nacional.
A principal diferença entre Lira e Alcolumbre nesse “projeto”, é que Lira sempre deixou clara a sua posição – praticamente uma oposição ao Lula3 – e seu alinhamento com a direita, principalmente com o bolsonarismo, mesmo que não seja tão fanático e doentio.
Já Alcolumbre rápido se mostrou aliado do recém-presidente eleito, articulou a sua recondução à presidência do Senado e também emplacou diversos indicados em cargos estratégicos em todos os escalões do novo governo, inclusive dois ministros de estado. Pronto, tava com a faca e o queijo na mão.
Faltava a cereja do bolo: indicar e emplacar um todo-poderoso ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima da Justiça brasileira e por onde passam todos os conflitos e contenciosos envolvendo políticos do país. Seu projeto pessoal estava quase se concretizando ao defender, publicamente, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), para a vaga. Nos cálculos de Alcolumbre seria fácil, afinal de contas Pacheco gozava do apreço de Lula, de boa parte do Planalto e de praticamente todo o Senado, onde havia feito uma gestão pacífica do Parlamento federal.
Mas ele faltou combinar com o próprio presidente da República e com a Constituição Federal, que, constitucionalmente, dá esse poder de indicação ao chefe do Executivo. O resto dos acontecimentos estão aí, quentinhos e que ainda durante muito tempo vão reverberar na política nacional e, principalmente no processo eleitoral em curso.
Como em política não existe almoço grátis, os atos e comportamentos de Alcolumbre lhe podem custar caro num futuro até breve, digamos assim. Nos tempos de hoje, o discurso da luta do bem contra o mal fica cada vez mais evidente e escancarado e parece que a lei do retorno está cada vez mais urgente e rápida.
Divulgado na semana passada, o painel Atlas/Bloomberg mostra que 81% dos eleitores brasileiros têm uma imagem negativa de Davi Alcolumbre (União-AP). Ele perde apenas para Hugo Motta, que aparece forma negativa para 87% dos entrevistados.
O que ampara o todo-poderoso presidente do Senado é que ele não é pré-candidato à reeleição do mandato, portanto, ainda tem um fôlego de mais 4 anos no Parlamento.

