Vendedor de ilusões
O sistema policial e judiciário brasileiro não pode deixar impune um dos maiores estelionatários da história recente do país: Daniel Vorcaro. É estarrecedor o assalto gritante aos cofres públicos que ele produziu, com a conivência e leniência de agentes públicos, para enriquecer ilicitamente e inflar financeiramente a carteira bancária do seu negócio, o Master.
Corrupção escancarada
O que mais gera indignação foi a falta de escrúpulos para agir numa área bastante sensível do país, que é rotineiramente atacada e alvo dos maiores escândalos de corrupção: a Previdência Social. Não à toa, o volume expressivo de dinheiro investido no banco Master vieram das previdências regionais, cujos recursos foram captados pelo próprio Vorcaro e agentes indicados por ele, com o aval e a abertura dos agentes públicos que operam o sistema.
Rombo bilionário
Não é de hoje que a Previdência está quebrada, muito por conta da corrupção escancarada que se pratica nessa área e que, em vez de ser coibida, só aumenta sob os olhos compassivos e omissos do poder público. Levantamento da CNN Brasil revela que o Master captou ao menos R$ 4,4 bilhões em previdências em diversos estados e municípios do país.
Fatura
E essa conta já chegou. Investigações da Polícia Federal que escancarou esse “assalto à mão armada” mostram o rombo em diversos estados. Vamos lá: Rio de Janeiro, cidades de São Paulo, Alagoas, Amazonas, Amapá, Goiás, Pernambuco, Mato Grosso do Sul. E quem vai pagar essa conta? o erário.
Escândalos
A cada dia vem à tona o rombo bilionário nas previdências. O maior aporte financeiro até o momento foi o da Rioprevidência, no Rio de Janeiro, com cerca de R$ 3,7 bilhões, que envolve diretamente o ex-governador do estado. Cláudio Castro (PL), embora ele negue qualquer envolvimento. Mas, o roubo consentido não para por aí.
Lesados
Previdências de outros estados estão praticamente falidas, obrigando os gestores (que foram coniventes) a sacrificar o custeio para cobrir o rombo causado por Vorcaro e o Master. Um exemplo é o Amazonas, em que o governador Roberto Cidade (União-AM) baixou um decreto em que retira R$ 100 milhões do orçamento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) para cobrir o rombo feito pelos investimentos da Amazonprev no Master.
Crime fiscal
A medida gerou uma reação violenta da bancada de senadores do Amazonas. Da tribuna do Senado, Omar Aziz (PSD-AM) denunciou a prática do governo e fez um apelo aos órgãos de controle para que não deixe o decreto passar impune. O mesmo fez o ex-prefeito de Manaus, David Almeida (Avante-AM) que, numa rede social, afirmou que vai denunciar a medida a estes órgãos de controle como “crime de responsabilidade”.
Roubo
Em Alagoas, o cenário também não é diferente. O senador Renan Calheiros (MDB-AM) pediu à justiça estadual o bloqueio de bens do ex-prefeito JHC para que sejam ressarcidos aos cofres públicos o valor de R$ 117 milhões, que é a soma do rombo feito no Iprev de Maceió por conta dos investimentos da previdência regional no banco Master, de Vorcaro. “Os aposentaos não podem pagar pela irresponsabilidade do ex-prefeito, que colocou recursos públicos no banco Master”, disse o senador.
‘De olhos fechados’
Os rombos não param por aí. A mais nova descoberta da Polícia Federal foi um aporte de R$ 3 milhões da previdência do município de Paulista, que fica no litoral de Pernambuco, feitos no banco Master. O que mais chama a atençao é que todos esses investimentos, segundo apurações da PF, foram feitos pelos agentes públicos sem nenhuma garantia dada pelo banqueiro.
Jogo de cena
Enquanto isso, a delação que Vorcaro sonha em fazer à Justiça continua seletiva; as investigações ganham a cada dia novos contornos e novos personagens, boa parte da política; o Senado se esquiva de fazer o seu papel, até porque alguns senadores são apontados como “cúmplices”; o Judiciário evita uma manifestação mais contundente. Enfim, quase um fingimento geral.
Embriagados pelo poder
Com todos esses dados não fica difícil entender a ascensão financeira meteórica do banco Master e do empresário Daniel Vorcaro, a ostentação exagerada que realizava com dinheiro público certo da impunidade e a chantagem explícita que empreendeu aos agentes políticos e privados, com a certeza de que nunca seria descoberto, sob pena de implodir mais da metade do país. Ele o fez.
Sofrimento coletivo
E, ao final de tudo, quem fica com a dor de ter sido lesado, roubado, assaltado são os aposentados e pensionistas (mais uma vez eles) do sistema previdenciário, o erário, a máquina pública, os investimentos sociais, na educação, na segurança pública, em moradia, enfim, a imensa maioria da população brasileira, que quer apenas garantir uma escala de trabalho mais justa e uma remuneração e qualidade de vida à altura do que servem ao país.

