O retrato político brasileiro desenhado pelas urnas

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Recorte eleitoral

O segundo turno eleitoral entre o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) era prevísivel, mas a liderança mínima de quase dois pontos percentuais do bolsonarista pegou o alto comando lulista de surpresa. Não era esse o cenário que o grupo trabalhava e agora, as cartas serão embaralhadas e um novo jogo e nova estratégia terão que ser reinventados para Lula reconquistar os mais de 2,2 milhões de votos que perdeu, os indecisos e os que se abstiveram na eleição do primeiro turno.

Otimista

Apesar do cenário pessimista, o presidente Lula foi o que mais se mostrou sereno ao falar com os aliados e se pronunciar a respeito do resultado das urnas. Segundo ele, agora que o jogo vai começar e afirmou que é “bom de mata-mata”, se referindo à disputa acirrada que vai travar com seu oponente neste segundo turno do pleito. Além de repensar sua estratégia de campanha, ele deu a senha de que vai buscar os 28 milhões de eleitores que decidiram não votar no dia de ontem.

Eufórico

Nem Flávio Bolsonaro esperava atingir essa perfomance, mas de posse dos números já está gritando aos quatro ventos de que será o responsável por decretar o “fim da era PT”. Com essa vantagem numérica, o presidenciável conquista um êxito que o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), não alcançou nas eleições de 2018 e 2022. Saber se ele irá sustentar e se vai negociar com potenciais aliados com êxito, saberemos nos próximos dias.

Fôlego político

Não foi somente Flávio Bolsonaro que se saiu bem neste primeiro turno eleitoral. Outros membros do clã Bolsonaro conquistaram espaço político e garantiram, pelo menos, 8 anos na vida pública, como a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e o filho do ex-presidente, Carlos Bolsonaro, que se elegeram senadores pelo Distrito Federal e Santa Catarina, respectivamente. Outro filho, Jair Renan, e o irmão, Renato Bolsonaro, conquistaram vagas na Câmara dos Deputados por Santa Catarina e São Paulo, respectivamente.

Avanço

O resultado dessa primeira fase eleitoral revela um crescimento expressivo e forte da direita no Brasil, com destaque ao PL. Dos 20 estados onde a eleição foi decidida em primeiro turno, cinco são do Partido Liberal: Paraná, com Sérgio Moro; Rio Grande do Sul, com Luciano Zucco; Rondônia, com Marcos Rogério; Roraima, com Arthur Henrique; e Santa Catarina, com Jorginho Mello.

É tua, Arthur!

E por falar em Arthur Henrique, ele conseguiu um feito inédito: ser eleito governador de Roraima duas vezes neste ano, num intervalo de quatro meses. Na eleição suplementar, em junho, o ex-prefeito de Boa Vista concorreu e ganhou, mas não assumiu por uma ação de inelegibilidade impetrada pelo governador interino, Soldado Sampaio (Republicanos-RR). Adversários novamente na eleição geral, Arthur venceu com 69,13% dos votos válidos.

Segundo round

Eleitores dos estados do Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e de Tocantins, mais o Distrito Federal vão retornar às seções eleitorais em 25 de outubro: Nessas localidades, três candidatos que estão no páreo são senadores: Alan Rick (Republicanos-AC), Omar Aziz (PSD-AM) e Professora Dorinha (União-TO).

Estrago do Master

A candidatura à reeleição do senador Ciro Nogueira (PP-PI) não resistiu ao estrondo do escândalo do banco Master e seu envolvimento direto e unilateral com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Depois de dois mandatos, o equivalente a 16 anos no Senado, ele dará adeus ao Parlamento em 31 de janeiro de 2027, quando se encerra essa legislatura. Procurado pela Coluna, ele não se manifestou, mas divulgou uma nota em sua redes sociais agradecendo aos seus eleitores e aliados e desejando sorte à nova bancada do Piauí no Senado. Ele perdeu a vaga para o deputado federal Júlio César, do PSD.

Fim de ciclo

Não foi só o Ciro Nogueira que perdeu a cadeira no Senado. Renan Calheiros, do MDB de Alagoas, também dará adeus ao Parlamento após 32 anos na casa. Infuente e experiente, ele chegou a presidir o Senado por quatro vezes durante esse período. Nos bastidores, a derrota está sendo vista como um grande golpe, não porque não foi reeleito, mas porque perdeu a cadeira para o seu arqui-inimigo, o deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).

Alívio

Enquantos uns senadores amargaram a derrota, outros já respiram aliviados, reeleitos para mais 8 anos de mandato. São os casos de Eduardo Braga (MDB) e Plínio Valério (PSDB), da bancada do Amazonas; Jacques Wagner (PT-BA); Cid Gomes (PSB-CE); Alessandro Vieira (MDB) e Rogério Carvalho (PT), da bancada de Sergipe; Eduardo Gomes (PL-TO); Marcelo Castro (MDB-PI); Márcio Bittar (PL-AC); Lucas Barreto (PSD-AP); Veneziano Vital do Rego (MDB-PB); Humberto Costa (PT-PE); Carlos Portinho (PL-RJ); e Styvenson Valentim (Podemos-RN).

Ufa!

Foi dessa maneira que o deputado federal e presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), respirou após o resultado do primeiro turno ter sido proclamado pelo Tribunal Regional Eleitoral de seu estado e confirmada a sua reeleição para mais 4 anos de mandato, com 124.339 votos. Resta saber se ele terá apoio para ser eleito presidente da casa na próxima legislatura.

Ressurgiu

Depois de amargar um ostracismo político e com várias tentativas de retornar ao poder, por meio de um mandato eletivo, o ex-deputado federal, ex-senador e ex-ministro dos governos do PT, Alfredo Nascimento, do PL Amazonas, e agora bolsonarista desde criancinha vai retornar à vida pública componto a bancada de seu estado na Câmara dos Deputados. Sua eleição não foi por méritos numéricos, mas por sorte de ter sido puxado matematicamente pelo deputado federal eleito mais votado do Amazonas, o vereador de Manaus, Sargento Salazar (PL), que arrastou quase 213 mil votos.

Suplência

O Amazonas, aliás, protagonizou fatos políticos históricos nas eleições deste ano: os deputados federais mais longevos do estado e da história da Câmara dos Deputados, Átila Lins (PSD-AM) e Silas Câmara (Republicanos-AM), embora tenham conseguido votos suficientes para se elegeram com folga, não conseguiram manter as respectivas vagas no quociente eleitoral, ficando, ambos, na primeira suplência dos respectivos partidos.

Valéria Costa
Valéria Costa
Jornalista, com 25 anos de profissão. Já atuou em veículos de comunicação em Manaus (AM) e Brasília (DF), na cobertura dos principais assuntos nas diversas editorias do jornalismo, com ênfase em política e opinião.

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