SÃO PAULO – A indústria de eletroeletrônicos iniciou 2026 em expansão e consolidou um novo patamar de consumo no Brasil, mesmo em um cenário de juros elevados e renda familiar pressionada. Dados da Eletros, associação que representa os fabricantes do setor, mostram que o volume comercializado entre janeiro e maio chegou a cerca de 53,6 milhões de unidades, alta de 11% em relação ao mesmo período de 2025, com destaque para o desempenho de linha branca e linha portátil.
Os números foram apresentados ontem (22), durante coletiva de imprensa na Eletrolar Show 2026, em São Paulo, pelo presidente executivo da entidade, Jorge Nascimento.
Em 2025, o setor encerrou o ano com 124,2 milhões de unidades comercializadas, praticamente repetindo o desempenho do ano anterior, com leve variação negativa de 1%. O resultado consolidou um nível de consumo significativamente superior ao observado antes do ciclo de crescimento iniciado em 2023.
Para Nascimento, os dados indicam que o setor deixou para trás um ciclo pontual de crescimento acelerado e passou a operar em um nível mais elevado de forma estrutural. “Quando olhamos a trajetória dos últimos anos, fica claro que o mercado não está mais preso a oscilações entre picos e vales, mas em um patamar diferente”, afirma.
“O resultado de 2026 mostra que, mesmo com crédito mais caro e orçamento apertado, o brasileiro continua destinando uma parcela relevante da renda para conforto, eficiência e tecnologia dentro de casa”, acrescentou o dirigente.
Substituição de aparelhos
Na linha branca, que reúne itens como fogões, lavadoras e refrigeradores, as vendas cresceram 16% no acumulado de janeiro a maio, para cerca de 7,1 milhões de unidades, na comparação com o mesmo período de 2025.
Segundo a Eletros, a categoria passa por um ciclo consistente de substituição de aparelhos antigos por modelos mais modernos e eficientes, o que explica a combinação de volumes elevados com crescimento de dois dígitos mesmo em um cenário de crédito mais restrito.
Diferentemente de outras categorias, a compra de um refrigerador, uma lavadora ou um fogão costuma ser uma decisão planejada, por envolver um investimento de maior valor. Por isso, o bom desempenho da linha branca sinaliza maior confiança do consumidor e a continuidade da renovação do parque de eletrodomésticos.
“Ainda há um espaço importante para substituir equipamentos antigos por modelos mais modernos e eficientes, que oferecem menor consumo de energia e mais economia para as famílias”, afirma Nascimento.
Linha portátil
A linha portátil segue como um dos principais vetores de crescimento do setor, com alta de 15% entre janeiro e maio e aproximadamente 37,6 milhões de unidades vendidas no período. A categoria reúne cerca de 40 tipos de produtos — de pequenos eletrodomésticos de cozinha a itens de cuidado pessoal — e se beneficia da combinação de tíquete médio mais baixo, maior frequência de compra e uso intensivo na rotina das famílias.
Nesse grupo, o impacto do ciclo econômico tende a se manifestar mais na troca de marca e na busca por preços mais competitivos do que na interrupção completa da demanda.
“Os portáteis funcionam, em muitos casos, como porta de entrada para novos hábitos de consumo e para maior conveniência no dia a dia”, diz Nascimento. “Mesmo quando o orçamento está apertado, o consumidor procura soluções que facilitem a rotina e isso mantém o segmento em trajetória de crescimento.”
TVs: mais polegadas, mais valor agregado
No segmento de televisores, inserido na linha marrom, o crescimento é mais moderado, mas permanece positivo. Entre janeiro e maio, as vendas somaram cerca de 5,6 milhões de unidades, um avanço de 3% em relação ao mesmo período do ano passado.
A avaliação da Eletros é que o mercado de TVs vive uma fase de maior maturidade. Isso significa que o ritmo de crescimento em volume tende a ser mais moderado do que em anos anteriores, mas continua sustentado pela renovação gradual dos aparelhos e pela preferência dos consumidores por televisores com telas maiores, melhor resolução, conectividade e novas funcionalidades.
“Hoje, a decisão de compra está cada vez mais relacionada à experiência proporcionada pelo produto. O consumidor busca televisores que entreguem mais qualidade de imagem, conectividade e recursos compatíveis com as novas formas de entretenimento”, afirma Nascimento.
Retração
Depois de três anos consecutivos de crescimento, o mercado de ar-condicionado split system registrou uma retração significativa em 2026. As vendas recuaram 17% no acumulado de janeiro a maio, totalizando cerca de 2,4 milhões de unidades na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Segundo a Eletros, a desaceleração reflete uma combinação de fatores. As temperaturas mais amenas reduziram a demanda por climatização, enquanto o crédito mais caro, os juros elevados e o maior comprometimento da renda das famílias levaram muitos consumidores a adiar a compra de bens duráveis. Soma-se a isso uma base de comparação elevada, após três anos de forte expansão impulsionada por ondas de calor, maior preocupação com conforto térmico e condições de financiamento mais favoráveis.
“A forte retração observada neste ano merece atenção e reflete um ambiente de consumo mais desafiador”, afirma Nascimento. “O ar-condicionado é um bem de maior valor e sua compra depende da combinação de necessidade, condições climáticas e acesso ao crédito. Quando esses fatores se tornam menos favoráveis, o impacto sobre as vendas é imediato.”
Tecnologia da informação e comunicação
Na linha de tecnologia da informação e comunicação, representada pelos monitores de vídeo, o balanço indica queda de 13% no volume comercializado entre janeiro e maio, para cerca de 792 mil unidades, em relação ao mesmo período de 2025.
O segmento vinha de forte expansão, impulsionada pela digitalização acelerada do trabalho, da educação e do entretenimento, que levou à renovação antecipada de grande parte dos equipamentos.
Para a Eletros, a retração decorre da combinação entre uma base de comparação elevada, após um período de forte expansão, e um ambiente macroeconômico que reduziu o ritmo de consumo de bens duráveis. Além disso, como parte importante das empresas e dos consumidores renovou seus equipamentos nos últimos anos, o ciclo de substituição tornou-se naturalmente mais longo.
Projeções
Para o fechamento do primeiro semestre, a Eletros projeta que o setor manterá crescimento de dois dígitos no consolidado, com destaque para o desempenho da linha branca e dos produtos portáteis. Entre os segmentos, a expectativa é de retração de cerca de 17% em ar-condicionado, crescimento de 12% na linha branca, avanço de 2% em TVs, expansão de 31% na linha portátil e queda próxima de 11% em tecnologia da informação e comunicação.
Na avaliação da associação, o quadro reforça o papel da modernização de eletrodomésticos tradicionais e da expansão da linha portátil como principais motores do desempenho. Ao mesmo tempo, a forte retração do mercado de ar-condicionado acende um sinal de atenção para a indústria, por refletir a desaceleração do consumo em um dos principais segmentos de bens duráveis.
“O cenário para o semestre é de crescimento, mas com comportamentos bastante distintos entre os segmentos”, afirma Nascimento. “A retração do mercado de ar-condicionado nos preocupa pela intensidade da queda e pelos reflexos sobre toda a cadeia produtiva.
*Com informações da assessoria de imprensa

